Venho desde julho de 2013 participando dos cursos BPro. Em um primeiro momento orientando durante as práticas e hoje palestrando juntamente com os professores Tiago Proença e Fernanda Macedo.

Tenho observado ao longo deste período que um dos principais questionamentos que surgem ao longo dos cursos é o de como conduzir um trabalho de preparação física para atletas e semi atletas?

Hoje essa resposta é muita clara, porém construída e amadurecida nestes últimos quatro anos, onde tive a oportunidade de trabalhar com pessoas de diferentes esportes: corrida, futebol, surf, kitesurf, suprace, jiu-jitsu, muay thai, só para citar alguns, tendo obtido feedbacks muito positivos em relação a evolução física e melhora no desempenho.

Há aproximadamente seis meses recebemos em nosso centro de treinamento, um caso bem específico de um corredor amador. Felipe “Aranha” chegou com uma lesão no calcanhar direito que o impedia de correr. Tinha o objetivo claro de modificar esse quadro para retornar aos seus treinos. Hoje, após cumprir as cinco fases iniciais de treinamento, com as adaptações necessárias ao seu perfil, encontra-se sem dor, treinando e competindo em alta intensidade, com a planilha de preparação física totalmente direcionada para seu foco que são as provas em montanha, onde enfrenta subidas e descidas em terreno irregular durante cinco a seis horas, dependendo da prova.

Retomando a questão sobre treinamento especifico, não precisamos ser experts ao extremo em fisiologia, cinesiologia ou teorias do treinamento físico, tampouco reproduzir gestos técnicos idênticos ao esporte para atingir resultados satisfatórios.

Na minha visão, devemos ter conhecimento sobre as leis básicas do treinamento físico; possuir como referência treinadores que trabalham há muito tempo com atletas e semi atletas; entender de função articular e padrões de movimento; e principalmente comunicação constante com quem se está trabalhando; para entender aspectos específicos do esporte; saber em que fase do treinamento encontra-se, quais são as metas, como está se sentindo durantes os treinos de corrida (neste caso) e como está naquele momento exato em que chega para treinar.

Desta maneira, de acordo com o FMS, podemos avaliar entre outros aspectos, quais são as principais assimetrias e dificuldades relacionadas a falta de mobilidade e estabilidade, assim reduzindo o risco de lesões, possibilitando ao atleta treinar mais e melhor.

Buscaremos desenvolver a força, e entendam que o objetivo não será torná-lo forte como um powerlifter, tampouco musculoso como um bodybuilder, mas que tenha padrões de movimento fortes e sólidos; neste caso enfatizando padrões de movimento como o dominante de joelho unilateral e o dominante de quadril unilateral, uma vez que o atleta durante a corrida, está com um pé de cada vez em contato com o solo. Daremos atenção também a força na fase excêntrica, pelo esforço realizado nas descidas da montanha; muita força nos estabilizadores da lombar, paravertebrais e grande dorsal, para auxilia-lo na manutenção de postura durante as subidas.

Trabalhos pliométricos, principalmente unilaterais, são muito bem-vindos no início do treino, objetivando o ganho de aceleração e desaceleração com absorção de impacto, mantendo a estabilidade dos joelhos e da região lombar. Imagine ele correndo cinquenta quilômetros, subindo e descendo montanhas, muitas vezes em terreno irregular, e toda vez que seu pé encontra o solo, seu joelho se direciona para dentro e sua lombar realiza uma flexão. Possivelmente, a longo prazo, desconfortos surgirão.

Portanto, será que colocando um bosu em cima de uma caixa (uma vez que o terreno é irregular), uma mochila com peso nas costas do atleta (porque na prova ele estará com uma) e solicitando para que suba e desça dessa plataforma alternando as pernas, estamos trabalhando da maneira mais adequada? Para nós não, porém vemos muito profissionais se prendendo a estas ferramentas por serem bonitas e chamarem a atenção, esquecendo-se de princípios básicos do treinamento físico.

Devemos ter bom senso, buscar informação e conhecimento de qualidade, viajar, conhecer outras culturas e realidades, investir, sair da zona de conforto, abrir a cabeça e pensar fora da caixa; e não nos contentarmos com o que é apresentado como verdade absoluta ou método ideal; provavelmente passaremos a vida inteira atrás disso, provavelmente não encontraremos!

Prof. Jordan Girardi