Resolvi escrever este artigo para esclarecer um dos questionamentos que mais recebo: Por que a BPro não utiliza pranchas de equilíbrio ou bosu nos treinamentos de seus alunos? Antes de responder a essa questão, quero deixar claro que mais importante do que a eleição das ferramentas, é necessário ter ciência do motivo e do momento certo de introduzir tais equipamentos nas sessões de treino. Na escolha dos instrumentos o gosto pessoal deve estar vinculado à prática profissional qualificada.

Como já escrevi anteriormente, o TF – Treinamento Funcional chegou ao Brasil de forma totalmente equivocada. Há um número elevado de “profissionais” que alegam trabalhar com esta metodologia de treinamento, mas que nunca, sequer, pegaram um kettlebell em suas mãos (e, esse índice aumenta, se somarmos aos que acreditam que sabem utilizá-lo de maneira adequada). Se formos pesquisar sobre o TF, principalmente nos Estados Unidos – precursor deste termo – veremos que essa antiga ferramenta é de origem russa, já utilizada há muitos anos, tanto no treino físico de atletas profissionais como no treinamento daqueles que procuram por qualidade de vida ou melhora em seu condicionamento físico geral. Assim sendo, por que, no Brasil, muitos “experts” em TF não sabem ao menos manusear este magnífico equipamento? Acredito que seja por falta de informação e discernimento entre o que é moda e o que é efetivo.

Minha referência ao kettlebell tem apenas a intenção de mostrar o quanto as academias se equivocam quando apresentam em panfletos e propagandas o Treinamento Funcional como uma de suas “modalidades”. Em primeiro lugar, Treinamento Funcional não é modalidade. Trata-se deuma filosofia de treinamento que visa desenvolver o corpo de forma eficaz, respeitando as funções articulares. O Treinamento Funcional envolve força, potência, resistência e todas as outras valências físicas de forma segura. Organizar, portanto, um espaço minúsculo com borrachas, bolas, bosus e colchonetes não é, nem nunca será, Treinamento Físico Funcional de qualidade.

Dado o cenário e esclarecidos os propósitos do Treinamento Funcional, volto a questão: Por que a BPro não utiliza pranchas de desequilíbrio ou bosu nos treinamentos de seus alunos? Ressalto que cada um deve utilizar o método que mais lhe agrada. Entretanto, o mínimo que um treinador deve saber é o momento correto de introduzir essas ferramentas no exercício de cada pessoa, respeitando a limitação física e as necessidades de cada uma. A busca por novidades é constante: subir em bolas ou em um bosu é o que mais vemos atualmente. Muitas vezes, pessoas são motivadas a se inscreverem em uma nova academia por diferentes ideias e tendências não sendo orientadas da maneira adequada. Existem indivíduos que nem mesmo conseguem agachar de forma correta, com os pés no chão. Nesses casos, realizar agachamento em uma prancha de equilíbrio é um erro crasso/grotesco. Pode provocar desequilíbrios musculares ainda maiores, disfunções articulares mais severas e, até mesmo, desenvolver lesões.

“Até ontem” quase não víamos a utilização desses equipamentos em sala de musculação, somente os fisioterapeutas empregavam esses instrumentos nos exercícios de propriocepção em fase de reabilitação. Hoje, no entanto, esses materiais “rolam aos montes” na área de treinamento. Tornou-se uma febre que creio que passará como tantas outras modas.

As perguntas que faço são: Qual é o objetivo de realizar um agachamento no bosu ou com a bola? Equilibrar-se? Fazer força com maior dificuldade? Chamar a atenção do aluno para algo “legal”? Agora responda-me: Já pensou em realizar um agachamento com barra livre à frente do corpo ou agachar com barra livre acima da cabeça, mantendo a estabilidade lombar, de joelho e da cintura escapular e, além disso, manter a mobilidade de quadril, torácica e glenoumeral? Se a resposta for não, faça e sinta o quanto é difícil de se equilibrar dessa forma. A ativação da unidade interna e externa do abdômen é extremamente eficiente, tornando-o realmente funcional. Para tanto, não é necessário colocar o aluno em cima de qualquer base instável. Além disso, posso garantir que treinar com os pés fixos no chão é muito mais seguro.

Como educadores físicos, temos o dever de promover qualidade de vida a nossos alunos e proporcionar atividades para força real, de maneira segura. Devemos orientar de acordo com a capacidade individual, estimulando as áreas e as habilidades corporais com programação e organização, sem invenções. Mesmo assim, se preferir utilizar as bases instáveis, faça isso respeitando progressões pré-determinadas, desenvolvendo objetivos claros ao usá-las: força, potência, mobilidade, estabilidade, etc.

Defendo o treino livre, sem malabarismos. Treinos por padrões de movimento e não grupos musculares. Respeito àqueles que utilizam as bases instáveis de forma coerente, sem pensar apenas em mostrar exercícios novos aprendidos no “Youtube”. Porém, se em algum momento alguém perguntar para você por que utiliza exercícios de equilíbrio – seja em cima de uma bola, seja com um bosu – nunca responda que é por “trabalhar os músculos mais profundos”. Essa é uma resposta sem sentido e de vaga abrangência.

Se você quiser saber como treinar, de fato, as musculaturas do centro do corpo (CORE), pesquise sobre os coachs mais respeitados no mundo do treinamento físico: Michael Boyle, Gray Cook, Eric Cressey, Mark Verstegen, Paul Check, entre outros. Descubra quais suas referências e desenvolva um pensamento mais crítico do que se lê em revistas ou em academias que buscam apenas fitness e não Treinamento Físico Funcional de qualidade.

Prof. Tiago Proença